Tratamento com células-tronco na Doença de Parkinson?
- drafabiananeurolog
- 9 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

Células-tronco são um tipo especial de célula que possui a capacidade de se transformar em diferentes tipos de células altamente especializadas, formando assim variados tecidos do corpo humano.
Na medicina, as terapias com células-tronco já possuem aplicações consolidadas. Um exemplo é o uso no tratamento de alguns tipos de leucemia, em que o transplante dessas células pode restaurar a produção saudável de células sanguíneas.
Uso de células-tronco na Doença de Parkinson
Na Doença de Parkinson, a proposta das terapias com células-tronco é substituir os neurônios dopaminérgicos, que se encontram reduzidos nessa condição, com o objetivo de restaurar as funções motoras prejudicadas pela doença.
Entretanto, existem importantes desafios técnicos e científicos a serem superados, como:
Produzir de forma segura e precisa novos neurônios dopaminérgicos;
Determinar o tipo e subtipo celular mais adequados para o tratamento;
Definir o local de enxerto mais eficaz (por exemplo, substância negra, putâmen ou outras regiões);
Identificar a melhor fonte celular (xenogênica, alogênica ou singênica);
Garantir que as células transplantadas mantenham sua viabilidade e função após o procedimento.
Histórico da terapia celular na Doença de Parkinson
Na década de 1980, foram realizados os primeiros transplantes experimentais de tecido fetal do mesencéfalo ventral. Esses estudos mostraram melhora funcional e aumento da produção de dopamina, mas trouxeram questões éticas e técnicas importantes.
Os ensaios clínicos iniciais apresentaram resultados mistos. Em alguns casos, pacientes desenvolveram discinesia induzida pelo enxerto. Além disso, o uso de tecido fetal enfrentou limitações como a escassez do material, os dilemas éticos envolvidos e a perda dos benefícios a longo prazo.
Limitações da terapia celular
Apesar de promissora, a terapia celular para Parkinson não é curativa. Ela pode melhorar sintomas motores e, em alguns casos, sintomas não motores, mas não interrompe a progressão da doença. A eficácia é incerta nas fases mais avançadas e existe a possibilidade de as células transplantadas desenvolverem novamente as alterações características da doença.
Riscos e questões éticas
CTEs (células-tronco embrionárias): pluripotentes, mas com questões éticas e risco de tumores/teratomas.
iPSCs (células-tronco pluripotentes induzidas): derivadas de células adultas (ex.: fibroblastos), contornam parte das questões éticas; também com risco de proliferação descontrolada e rejeição.
Questões imunológicas
Mesmo células provenientes do próprio paciente (autólogas) podem sofrer rejeição. Em transplantes alogênicos, frequentemente é necessária a imunossupressão para evitar rejeição, o que traz riscos adicionais.
Pesquisas recentes (publicadas em 2025)
Estudo de Sawamoto e colaboradores (Japão – fase I/II)
Incluiu 7 pacientes que receberam células precursoras dopaminérgicas derivadas de células-tronco pluripotentes induzidas.
Confirmou segurança: não houve eventos adversos graves nem formação de tumores.
As células transplantadas produziram dopamina.
Observou-se melhora motora em 5 de 6 pacientes avaliados com medicação e em 4 de 6 sem medicação.
Duração do estudo: 24 meses.
Estudo de Tabar e colaboradores (EUA/Canadá – fase I)
Incluiu 12 pacientes tratados com células progenitoras dopaminérgicas derivadas de células-tronco embrionárias.
Na dose mais alta, houve redução de 50% nos escores de sintomas em 18 meses.
Imagens cerebrais mostraram aumento de dopamina e sobrevivência das células transplantadas.
Nenhum paciente apresentou discinesia, efeito adverso visto em transplantes fetais.
Duração do estudo: 18 meses.
Atenção: esperança com cautela
As pesquisas com células-tronco para a Doença de Parkinson avançam com resultados encorajadores, trazendo esperança de novas opções de tratamento no futuro. No entanto, é fundamental interpretar esses dados com cautela, pois os estudos atuais apresentam limitações importantes:
Tamanho amostral reduzido: apenas 7 participantes no estudo japonês e 12 no norte-americano, o que aumenta a chance de resultados ao acaso e dificulta a detecção de efeitos reais.
Ausência de grupo controle: não houve comparação com placebo ou com o tratamento padrão isolado. Isso impede afirmar se as melhorias observadas foram realmente consequência do transplante.
Estudos abertos: tanto pesquisadores quanto pacientes sabiam que a terapia foi aplicada, o que pode gerar viés na percepção e na avaliação dos sintomas.
Possibilidade de efeito placebo: especialmente em doenças com sintomas variáveis, o placebo pode levar a melhorias temporárias.
Tempo de acompanhamento limitado: ainda não se sabe se os benefícios persistem e se a segurança se mantém por muitos anos.
Heterogeneidade entre pacientes: diferenças no estágio da doença, na dose e no tipo de células usadas dificultam a generalização dos resultados.
Conclusão
Embora os resultados iniciais sejam promissores e representem um avanço importante, ainda é muito cedo para considerar a terapia celular com células-tronco como uma solução estabelecida para a Doença de Parkinson.
Pacientes devem buscar informações em fontes confiáveis e discutir suas dúvidas e anseios com seu médico especialista.
Dra Fabiana de Moraes Goraieb
Neurologista Clínica
Especialista em Distúrbios do Movimento e Doença de Parkinson
CRM 163559 SP / RQE 73129
Fonte:
Barbuti PA, Barker RA, Brundin P, Przedborski S, Papa SM, Kalia LV, Mochizuki H; MDS Scientific Issues Committee. Recent Advances in the Development of Stem-Cell-Derived Dopaminergic Neuronal Transplant Therapies for Parkinson's Disease. Mov Disord. 2021 Aug;36(8):1772-1780. doi: 10.1002/mds.28628. Epub 2021 May 8. PMID: 33963552.
Sawamoto, N., Doi, D., Nakanishi, E., Sawamura, M., Kikuchi, T., Yamakado, H., ... & Takahashi, J. (2025). Phase I/II trial of iPS-cell-derived dopaminergic cells for Parkinson’s disease. Nature, 1-7.
Tabar, V., Sarva, H., Lozano, A. M., Fasano, A., Kalia, S. K., Yu, K. K. H., ... & Henchcliffe, C. (2025). Phase I trial of hES cell-derived dopaminergic neurons for Parkinson’s disease. Nature, 1-6.





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